Hoje vou esquecer as histórias fictícias, os personagens por mim inventados, todos aqueles mundos paralelos que a minha imaginação projecta nas palavras bem vincadas do caderno branco de argolas, com maçãs rosas e verdes na capa e inscrições no verso. Hoje, e só por momentos, vou permitir-me a pensar em ti e nas saudades que me causas. Vou deixar-me embalar em memórias, à procura de cheiros e de lugares, esperando encontrar momentos e olhares que me reavivem quem costumavas ser. Vou ignorar a dor que me corrói e esmaga, que me lembra a cada dia – nos sonhos e fora deles – o quão longe estás de mim, o quão impossível é ver-te uma outra vez. Vou ser forte e não ter medo de possíveis lágrimas, pois elas não me tornam mais fraca, apenas humana.
Partiste há exactamente um ano, nove meses e um dia. Há um ano, nove meses e um dia que me privas da tua presença, do teu sorriso cândido e olhar sincero. De abraços e conselhos, de palavras bonitas e repreensões acertadas. Há seiscentos e noventa e um dias, dezasseis mil e quinhentas e oitenta e quatro horas, novecentos e noventa e cinco mil e quarenta minutos, que sinto este vazio no peito; que a casa que habitavas no meu coração está deserta, sem o aconchego que tu graciosamente lhe incorporavas. Deixaste no teu lugar uma saudade imensa, do tamanho do céu e do mar, tão vasta como o desconhecido universo. Penduraste, nas paredes brancas da sala, lembranças guardadas em fotografias que o tempo apaga, mas que a memória grava eternamente no arquivo única e exclusivamente dedicado a ti, a quem foste e a tudo o que por mim fizeste.
A dor da tua perda está hoje camuflada pelos sorrisos dados sem vontade, aqueles que encobrem as lágrimas por os meus olhos não derramadas. É uma máscara criada para transparecer felicidade e me salvaguardar de preocupações alheias. O ideal para que todos me pensem recuperada e, novamente, de bem com a vida e com o destino.
Estou sem ti, mas sempre contigo. Porque te carrego na alma, no coração e nas memórias. No passado que, um dia, já foi presente.
Ritaa B.
24 de Agosto, 2010
O meu avó morreu já à três anos, mas ainda não aceitei isso completamente, era uma pessoa muito importante para mim, e quando vou ver a minha avó ainda sinto a presença dele e apereçe que a qualquer momento vou vê-lo na taberna a beber vinho tinto e a jogar às cartas.
e também desenvolvi uma fobia por cemitérios, nunca mais entrei em nenhum desde a sua morte.
adorei o teu texto. Mesmo. ^^
jura?! eu também! tenho horror a cemitérios, agora. depois da sua morte, só consegui ir lá uma única vez, quando fez um ano que morreu. cemitérios são, para mim, sinónimo de fim, e eu não consigo aceitar que ele partiu mesmo, que nunca mais o vou voltar a ver. :/
o meu avô morreu em Janeiro do ano passado e fiz algo do género: escrevi-lhe um poema no dia seguinte, completamente improvisado (anda algures na minha galeria Pela Calada dos Ecos). não era de todo a minha intenção, mas familiares meus tentaram ler o poema no funeral e nenhum conseguiu; ficavam emocionados demais. ele acabou por levar a cópia original com ele, pousada no peito.
este texto já não é o primeiro que lhe escrevo, é o mais recente de vários. sinto-me mais próxima dele ao escrever-lhe, é algo que me faz sentir sempre mais leve.
vou procurar o poema. (: